O potencial da fé como comportamento e não como expressão da religiosidade

Falar do potencial da FÉ sem o viés religioso clássico é nosso desafio. Isto porque sempre tivemos a premissa de que nossa abordagem deveria ser preponderantemente ecumênica. Sem, portanto, manifestar preferência de qualquer natureza religiosa mais específica.

Ecumenismo é um processo de entendimento que reconhece e respeita a diversidade entre as expressões religiosas / igrejas. Configura uma iniciativa importante da pacificação das diversas escolhas para o caminho do que é sagrado.

Se procurarmos a palavra fé no Google, as imagens que aparecerão são relacionadas a religião ou a religiosidade. Infelizmente, uma deformação do significado genuíno desta palavra.

Primeiramente qual a diferença entre religião e religiosidade

A religião é uma palavra que expressa o processo relacional desenvolvido entre o homem e os poderes por ele considerados inexplicáveis e milagrosos. Isto porque se estabelece uma dependência ou uma relação de dependência com a instituição que a coordena.

Essa relação se expressa através de emoções como confiança e medo, através de conceitos como moral e ética, e finalmente através de ações como cultos ou atividades pré estabelecidas, ritos ou reuniões solenes e festividades.

A instituição religião é uma trupe que representa a sua relação com o inefável. Demonstra a sua convicção nos poderes que lhes são transcendentes. Esta transcendência é tão forte, que povoa a cultura humana por meio de diversas denominações.

A religiosidade é um comportamento do indivíduo que é caracterizada pela disposição ou tendência deste para perseguir a sua própria crença ou a integrar-se às coisas sagradas e misteriosas.

Precisamos diferir o ser possuidor de religiosidade, daquele que participa de alguma instituição religiosa, que é fruto dos sistemas religiosos disponíveis.

Não raro observamos este ou aquele sistema religioso apregoar ser “O caminho” de transformação da humanidade. Ele poderá ser “UM caminho”, mas não necessariamente “O caminho”.

Em decorrência disto, não existe o melhor sistema religioso, mas o que mais se adeque ao entendimento e ao despertamento de consciência do indivíduo que o procura.

Religiosidade é a BUSCA, não o ENCONTRAMENTO. Ao passo que Religião parece expressar a trupe que pratica o exercício de algum tipo de CONCLUSÃO.

Fizemos um vídeo sobre as diferenças entre religião e religiosidade, que compõe uma das 20 videoaulas do OT SCIENCE. Assista ao vídeo abaixo e, se desejar baixar o PDF com os slides utilizados, clique aqui:

Mas a fé não precisará nenhum destes conceitos para ter seu efeito operacionalizado na prática.

O que significa Fé

As definições de fé são muitas. Vou privilegiar a definição de fé que absorvi na formação que tive o privilégio de fazer com o Prof. Dr. Luiz Machado, criador da Emotologia:

FIRME FUNDAMENTO DAS COISAS QUE SE ESPERAM E A CERTEZA DAS COISAS QUE NÃO SE VÊEM

Em outras palavras, fé representa a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade. Sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação.

Sua base se sustenta pela absoluta confiança que se deposita nesta ideia. A fé acompanha absoluta abstinência de dúvida pelo antagonismo (conflito zero) inerente à natureza destes fenômenos psicológicos e da lógica conceitual. Ou seja, é impossível duvidar e ter fé ao mesmo tempo.

A fé se confunde semanticamente com os verbos crer, acreditar, confiar e apostar, mas estas palavras não exprimem o sentimento genuíno da fé, posto que podem embutir dúvida parcial (algum tipo de conflito) como reconhecimento de um possível engano.

Portanto, se uma pessoa simplesmente acredita, confia ou aposta em algo, não significa necessariamente que ela tenha fé. A fé é um sentimento que não se sustenta em evidências, provas ou entendimento racional e portanto, alegações baseadas em fé não são reconhecidas pela comunidade científica como parâmetro legítimo de reconhecimento ou avaliação da verdade.

A fé se manifesta de várias maneiras. É deflagrada quando existem desejos de reconforto em momentos de aflição desprovidos de sinais de futura melhora. Quando existe esperança por melhores notícias. Quando existem motivos considerados moralmente nobres ou estritamente pessoais (e até egoístas). Pode estar direcionada a alguma razão específica (que a justifique) ou mesmo existir sem razão definida.

Embora o potencial da fé seja dependente única e exclusivamente de um comportamento, ela normalmente depende de muletas para sua eficácia.

A muleta da fé

Embora a fé seja um comportamento que, para sua operacionalização, não dependa de mais nada, ela normalmente é manifestada com uma deformação importante. Ela precisa de uma muleta para se manifestar.

Esta muleta é expressa quando a fé acaba designando alguém ou alguma coisa para executar a operacionalização do que a fé deseja. Exemplo:

Eu tenho fé em “muleta” que meu objetivo será alcançado.

As muletas mais comuns são as divindades, ou deidades, próprias das religiões e/ou da religiosidade da pessoa. Atribui-se à muleta a responsabilidade de executar o que a fé expressa.

A fé é expressa por meio de um Deus (de sua religião ou representante de sua religiosidade) para execução de sua manifestação. A fé parece ser um sentimento terceirizado e não genuinamente pessoal. A muleta necessária para conseguirmos operacionalizar o potencial da fé.

Embora Jesus tenha dito várias vezes (Bíblia), após seus muitos milagres serem executados, a frase célebre “não fui, foi a sua fé”, as pessoas não capitalizam a força destas palavras.

Jesus estaria alertando o que eu pretendo reenfatizar aqui. Que se a fé fosse atribuída a qualquer outra muleta, um pedaço de madeira ou qualquer outro objeto, o milagre seria realizado da mesma forma.

Em realidade não foi a muleta a responsável pelo milagre ou pela consecução do que a fé expressava, mas foi a simples fé, como comportamento (e não como crença na muleta) que tem este potencial incrível.

Parece quase impossível o exercício da fé sem fazer uso desta muleta a que estou me referindo. Minha opinião é que isto faz parte de nossa limitação mesmo.

Ou seja, sem que tenhamos algo para representar esta terceirização, não conseguimos expressar fé genuína, isolada e desprendida da necessidade da muleta.

Mas saiba que, mesmo sem termos consciência da muleta, a fé existe.

O potencial da fé explicado pelos efeitos placebo e nocebo

Na medicina e, principalmente, na indústria de fármacos (remédios, drogas) o conceito de efeito placebo e nocebo ilustra bem o potencial da fé.

A palavra placebo, do latim placebo (que significa agradarei) é um fármaco, terapia ou procedimento inerte (portanto isento do componente ativo) que tem a capacidade de gerar o efeito terapêutico pretendido.

A ingestão ou aplicação do placebo apresenta, no entanto, efeitos terapêuticos exitosos. Isto se deve aos efeitos psicológicos, pelo menos a princípio, decorrentes da fé do paciente de que ele está realmente sendo tratado com o remédio legítimo e com desejo forte de êxito.

O critério para aprovar uma fármaco é que ele seja, no mínimo, dotado de efeito igual ou superior ao placebo. Ou seja, o fármaco legítimo precisa ser melhor, mesmo que pouco, do que rigorosamente nada. Ou melhor, nada não, do que o potencial da fé.

O fenômeno inverso ao efeito placebo é conhecido como efeito nocebo. Ou seja, o termo é utilizado para designar reações danosas, prejudiciais, desagradáveis ou indesejadas em um indivíduo como resultado da aplicação de um fármaco inerte (sem nada de princípio ativo). Neste caso, o potencial da fé do indivíduo se manifesta de que a droga causará efeitos indesejados.

Veja aqui o potencial da fé sendo operacionalizado a partir de uma mentira. De que estás tomando um fármaco legítimo quando, na verdade, não se está tomando absolutamente nada.

Mesmo que inconscientemente, a muleta aqui é o fármaco fake. Mesmo que ele seja inerte (rigorosamente nada, mera farinha prensada) seu efeito, a partir do potencial da fé, é a melhora (efeito placebo) ou a piora (efeito nocebo).

O potencial da fé é tão verdadeiro, que o efeito placebo é, reitero, o critério mundialmente aceito para aprovar a eficiência, eficácia e efetividade de qualquer fármaco fabricado no mundo todo.

O que fazer com este aprendizado?

Um dos episódios de nosso programa semanal AnOTaí!, todas as terças-feiras, mais especificamente o episódio #18 (clique aqui e assista), dedicamos exclusivamente e este tema.

O nosso objetivo com esta abordagem é que o potencial da fé não é privilégio de quem tem alguma religião, ou mesmo alguma religiosidade, ou mesmo alguma espiritualidade, como alguns preferem.

O potencial da fé pode se expressar (e se expressa) em quaisquer pessoas, sejam eles agnósticos, ateístas, panteístas, politeístas, monoteístas, etc.

O desafio maior é operacionalizar o potencial da fé sem precisar de quaisquer muletas. Confesso que este tem sido meu objetivo pessoal, mas ainda estou longe, muito longe de lograr êxito nesta busca.

Eu mesmo ainda preciso do livro físico (muleta) para fotoler um livro, procedimento que exige o exercício do potencial da fé. Ainda preciso de algum fármaco (muleta) para depositar a responsabilidade do sucesso ou insucesso de qualquer tratamento médico.

Sabemos que isto é possível, e é o que procuramos desenvolver através do nosso Método OT de Desenvolvimento Humano, mas não é uma jornada simples. Nós todos aqui na Olho de Tigre estamos nesta jornada de forma obstinada. Afinal de contas, o conceito de plenitude é muito aderente a tudo isto.