Devemos ensinar ou voltar a aprender?

 artigo 3 essinar ou aprender

Em um mundo cada vez mais difícil de se perpetuar profissionalmente, principalmente sem dispor do uso contínuo da intelectualidade mais formal, ainda assistimos tantos brasileiros sem a formação acadêmica básica a serviço da competitividade organizacional mais elementar. Devemos ensinar ou voltar a aprender?

Quantos brasileiros, ainda cedo, priorizam o trabalho ao brincar, quanto mais ao estudar, motivados pela regra da vida, imposta pela natureza, da batalha de nos mantermos vivo.

Tal conjuntura configura uma realidade irrefutável. No entanto, este artigo não quer privilegiar essa penumbra social, mas sim levantar uma outra questão que tenho vivido em minha atividade profissional: a dos cidadãos que frequentaram a escola, mas ainda continuam na marginalidade profissional.

Seria uma questão de mediocridade pessoal?! Um desses maus alunos que não deram o máximo de si durante o período das aulas?! Um exemplo de falta de base acadêmica durante o ensino fundamental que o limitou ao aprendizado posterior nos cursos de nível médio e superior?! Seria aquele aluno “problema” que não gostava de estudar?! Um daqueles alunos que veio daquela “péssima” escola?!

Não! Estou absolutamente convencido de que não. Esses argumentos não são, de longe, a melhor justificativa para esses casos.

Tenho vivido e tido experiências sobre os três papéis do ambiente educacional. Portanto, sou e serei eterno aluno. Atuo também como professor universitário em cursos de graduação e pós-graduação e ainda estou CEO de uma empresa de consultoria em gestão integrada especializada em gestão da transformação organizacional.

Esta empresa tem atuado, dentre outras atividades, no segmento de treinamentos técnicos e motivacionais e, com frequência, nossos conteúdos programáticos podem ser configurados como corretivos ao conteúdo programático da escola tradicional. O que ensinamos deveria ter sido ensinado nos bancos de escola, mas infelizmente não o foram.

Nossa atividade tem procurado conscientizar as entidades de ensino brasileiras na aplicabilidade das práticas de excelência em gestão, adotadas pelas empresas públicas e privadas. Como por exemplo, a Certificação ISO 9000 para Escolas, a norma ISO 9001:2000 especialmente adaptada pela ABNT com aplicação específica para entidades de ensino. Poucas são as escolas que já se certificaram, ou até se interessaram pelo assunto, por puro desconhecimento sobre essa possibilidade.

Essa experiência nos autoriza a interferir, razoavelmente, sobre a necessidade de alternativas para a problemática do profissional formado academicamente, mas ainda muito mal colocado no ambiente corporativo organizacional. Embora formado, estes profissionais não servem para muita coisa.

Talvez a causa fundamental do problema resida mesmo nos professores, quando insistem por culpar os alunos pelo seu mau desempenho sem observar um pouco mais seus próprios espelhos para constatar o sua posição e performance como professores que “acreditam” representar. Será que as aulas seriam assistidas, com prazer por eles mesmo?

Devemos ensinar ou voltar a aprender?

Será que eles mesmos não seriam reprovados quando submetidos ao método de ensino atual? Será os professores também não teriam nota “D” no ENEN?

Será que seria legítimo que os professores definissem o conteúdo programático de suas disciplinas? Será que eles seriam capazes de incluir naquele conteúdo programático algo que não conhecessem, mas que, sabidamente, o mercado necessitasse?

Será que o orgulho deles permitiria levá-los novamente aos bancos das escolas para reciclagem total de seus meios de ensino? Será que saber o conteúdo de sua disciplina é suficiente ou teriam também que saber ENSINAR o mesmo conteúdo?

Será que a classe toda seria realmente “burra” quando, depois daquela aula de física clássica e chata, o professor aplica suas avaliações capciosas e manifesta que a maioria (cerca de 70%) de seus alunos sempre fica de exame? Não caberia aqui uma reflexão do professor que privilegiasse o ato de gerar aprendizado ao aluno e não o mero ato de “despejar” conhecimentos aos mesmos?

Será que também eles não dormiriam em sua própria aula?

Será que eles realmente fazem de tudo para contribuir com a vitória profissional daquele aluno? Será que aquele ex-aluno que encontrou o professor num Shopping com a namorada, estará comentando com orgulho do mesmo, quase emocionado, ou será que a namorada deste esforçar-se-á para evitar que ele se dirija ao professor com a intenção de agredi-lo? Será o professor um dos responsáveis pelo estrago que fizeram em sua vida profissional?

Será que este aluno é realmente o único culpado?

Com certeza, não. O professor e toda a mesmice universitária são as protagonistas da atual realidade. O aluno pode até ter sua culpa, mas é coadjuvante e não protagonista da endemia.

 Orlando Pavani Júnior